quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

DSM V -

Los manifiestos Stop DSM: Barcelona, Buenos Aires, São João del Rei (Brasil).

POR UNA PSICOPATOLOGÍA CLÍNICA, QUE NO ESTADÍSTICA.

POR UN ABORDAJE SUBJETIVANTE DEL SUFRIMIENTO PSÍQUICO EN NIÑOS Y ADOLESCENTES, NO AL DSM. 
 

EM PROL DE UMA PSICOPATOLOGIA CLÍNICA

EM PROL DE UMA PSICOPATOLOGIA CLÍNICA



MANIFESTO DE SÃO JOÃO DEL REI-BRASIL 

EM PROL DE UMA PSICOPATOLOGIA CLÍNICA

Nós, do Núcleo de Pesquisa e Extensão em Psicanálise da Universidade Federal de São João del Rei, do Laboratório Interunidades de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP, do PSILACS Grupo de Pesquisa “Psicanálise e Laço Social no Contemporâneo” do CNPq e do Laboratório de Psicopatologia e Psicanálise da Universidade Federal de Minas Gerais aproveitamos a ocasião da publicação próxima do DSM-V para lançarmos nosso manifesto em prol de uma psicopatologia em que o sujeito seja contemplado. Considerar o sujeito significa: retomar a dimensão clínica dos diagnósticos para além de um uso exacerbado da estatística e a restituição do sintoma a uma função subjetiva. Acompanhamos os manifestos de Barcelona e Buenos Aires (aqui) e o Manifesto de Paris (aqui). Nosso manifesto se sustenta em quatro partes: científica; formação profissional e ensino; clínica e política.

1 - Ciência
            O DSM (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorder ou, em português, Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) foi responsável por tentar impor a partir de sua terceira versão, em 1980, uma mudança no modo de pensar a psicopatologia. Tal acontecimento, com forte impacto político, favoreceu a volta da psiquiatria biológica ao centro da cena clínica de diagnóstico e tratamento de transtornos mentais. A busca de lesões no cérebro ou de disfunções bioquímicas voltou, então, a ser foco de trabalhos e pesquisas, principalmente na década de noventa com o édito do presidente dos Estados Unidos declarando-a como a década do cérebro (Amaral, 2004, p.15). Como corolário, as demais abordagens psicopatológicas lograram o patamar de anti-científicas ou mesmo de superadas e desatualizadas.
            Em conseqüência disso, o surgimento do DSM-III (1980) e de suas edições subseqüentes, (DSM-III-R 1987;  DSM-IV, 1994 e DSM-IV-TR, 2000), foi saudado por seus promotores como uma revolução científica. O psiquiatra Gerard Klerman chega a dizer em 1984 que debater a sua validade seria um anacronismo, pois este manual teria vencido a batalha científica em relação aos outros sistemas e teorias diagnósticas e psiquiátricas. Essa vitória faria uma tábula rasa na história da psicopatologia por conseguir, segundo seus promotores, ultrapassar a falta de acordo entre diversos teóricos do campo do sofrimento psíquico. A falta de acordo impediria a comunicação entre os diversos clínicos e prejudicaria o processo de diagnóstico e o tratamento a ser oferecido. Dois princípios básicos amparam este manual: transformar a psicopatologia em um descritivismo de sinais e sintomas; e evitar pronunciar-se sobre a etiologia dos transtornos mentais. Podemos reduzir estes princípios a uma única proposição: o a-teorismo. E um método explícito de pesquisa é indicado: a estatística.
            Ora, em primeiro lugar, como pode uma revolução científica ser a-teórica? Pois uma revolução científica depende do papel de uma teoria; esta, ao contrário do que acreditam os promotores dos DSM’s, não é uma mera abstração, mas um esforço de inteligibilidade, como diria Alexandre Koyré (1991). Se tomarmos a linha de argumentação de Thomas Kuhn (2001), uma revolução científica implica em uma mudança de paradigmas nos quais diversos atores poderiam aí se reconhecer. No entanto, não é o que temos com os DSM’s: eles não são uma unanimidade epistêmica, apesar de sua pretensão de ser hegemônico, muito ao contrário. E o uso que fazem da estatística - avaliação da freqüência de um sintoma por um período de tempo - acompanha o seu propalado descritivismo. Mas, como diz Gaston Bachelard (1996), o uso da matemática não é descritivo, não se reduz a descrever como é um fenômeno, mas explicá-lo. Os promotores dos DSM’s confundem quantificação com inteligibilidade científica.
            Se situarmos a posição dos DSM’s em uma perspectiva histórica mais ampla, vemos que é mais um capítulo do debate entre os defensores de uma etiologia biológica (os somaticistas) e os defensores de uma etiologia psíquica (os psiquistas). Nesta perspectiva, seu a-teorismo cai por terra, uma vez que não trata da etiologia por questão de estratégia: se não consegue demonstrar a validade de uma etiologia biológica, o melhor a fazer é deixar a questão de lado até que se consiga uma prova nessa direção. Assim, temos uma recusa ao debate por impedir que os defensores da etiologia psíquica se manifestem. A única que seria realmente válida seria a etiologia biológica, mesmo esta não sendo demonstrada. Essa estratégia acompanha o princípio do descritivismo. A consequência é um manual que se restringe a catalogar os fenômenos sem preocupação em saber como surgem, por que surgem, como se articulam entre si, e principalmente: que função esses fenômenos podem desempenhar para determinado sujeito. Como não tem preocupação com o que determina o aparecimento do sintoma e sua função para o sujeito, deixam de lado a clínica. Essa perspectiva descritiva fechada a debates com outras maneiras de pensar a psicopatologia e que ignora sua história tem impactos notáveis no ensino da psicopatologia e a conseqüente formação e atuação de profissionais.

2 - Formação de Profissionais e Ensino da Psicopatologia
            Os DSM’s não têm a pretensão de serem hegemônicos somente no campo da clínica. Desde a sua quarta edição (2002, p. 21) pretendem ser um instrumento didático para o ensino da psicopatologia. Sua intromissão nas universidades torna o quadro da formação profissional cada vez mais dramático: em vez de um ensino real de psicopatologia, de sua história e de seus impasses; em vez de um ensino que valorize o debate amplo em torno dos modos de proceder o diagnóstico que possibilitaria a formação de um profissional com espírito crítico, temos o ensino da psicopatologia reduzido ao preenchimento de um check list em vez de uma semiologia clínica, uma taxonomia ao estilo da biologia do século XVIII em vez de uma nosografia; e a nosologia, por definição, é deixada de lado.
            Se os DSM’s têm a pretensão de serem a-teóricos, a preocupação atual com o ensino de psicopatologia torna-se trans-teórica: o que é comum tanto a psicólogos/psiquiatras fenomenólogos (Moreira, 2002; Serpa, 2007) quanto a psicanalistas de diversas afiliações (Pacelli, 2002; Figueiredo e Tenório, 2002; Iribarry, 2003; Álvarez, 2004).
            O a-teorismo dos promotores dos DSM’s também é questionável no que concerne ao ensino. Se nos remetermos aos fatores culturais e sócio-históricos, é preciso lembrar as palavras de Roger Olivier Martin (1989) quando da revisão do DSM-III: ele é um manual diagnóstico americano. Tanto que na América Latina temos o Guía Latinoamericana de Diagnóstico Psiquiátrico (2003), realizado pela Associação Psiquiátrica da América Latina. Este Guía aceita os pressupostos classificatórios da CID-10 e do DSM-IV. Mas, por outro lado, é categórico ao afirmar que “entretanto, estes sistemas, apesar dos enormes esforços de seus criadores, pareceram não serem suficientes para refletir as maneiras idiossincráticas de experimentar uma enfermidade e as necessidades clínicas particulares da população latino-americana. Devemos reconhecer que, mesmo que a investigação empírica nessa região esteja emergindo recentemente, a experiência diária de seus clínicos não pode ser ignorada” (2003, p.8). Ainda nesse aspecto, Juan Carlos Stagnaro (2007) lembra que a China tem seu próprio sistema diagnóstico e comenta, com um tom irônico, que o DSM-IV, em sua pretensão de ser mundial e hegemônico deixa de lado um bilhão e meio de pessoas.
            Em termos históricos, o dito a-teorismo torna-se, no ensino de psicopatologia, ignorância. Muitos dos termos utilizados para definir os sintomas que serão coligidos para formarem as síndromes e definirem os transtornos, são provenientes de tradições teóricas muitas vezes antagônicas, como aponta Serpa em um texto amparado na fenomenologia (2007). Deste modo, como diz o psicanalista Stagnaro (2007, p.57), este a-teorismo é na verdade um multi-teoricismo. Dizer isso é importante para questionar a coerência interna dos DSM’s, além de demonstrar a falta que faz, no ensino de psicopatologia, a sua história, as suas diversas correntes e os seus calorosos debates. E confundir conceitos de diversas perspectivas teóricas é, de um ponto de vista pedagógico, difundir ainda mais a ignorância, travestida de ciência.
            Se, do ponto de vista cultural e histórico, temos no ensino pautado pelos DSM’s a ignorância de aspectos importantes, no que diz respeito ao ensino propriamente clínico, vemos que se ignora a sua própria matéria. Pois ensinar psicopatologia tão somente em termos de presença ou ausência de sinais e sintomas e sua freqüência é ignorar o método clínico, além de impedir que se faça uma discussão séria sobre o que é o normal e o patológico. É ficar somente na franja dos fenômenos como se eles não afetassem um sujeito. Como diz Serpa: “Queremos ensinar uma psicopatologia que não descarte a subjetividade, mas, em vez disso, faça desta seu interesse primeiro”. E fazer da subjetividade seu interesse primeiro nos leva, necessariamente, a um ensino que não ignora a clínica, não ignora os aspectos sócio-históricos e não ignora a história da psicopatologia. E, assim, poderemos formar profissionais com espírito crítico, que não tenham como ferramenta de trabalho somente a medicação do sujeito e a remissão dos sintomas e que possa, desse modo, discutir com subsídios as diversas políticas de saúde mental. Mas, para isso, o profissional tem que ter uma formação propriamente clínica que valorize a observação e a escuta minuciosa do paciente e a construção do diagnóstico diferencial em psicopatologia.

3 - Clínica e Estatística
            Os DSM’s, em seu esforço de ser ciência, deixam de lado uma metodologia importante no trabalho do campo do sofrimento psíquico: o método clínico. Como diz George Lantéri-Laura “não há nada na psicopatologia que não tenha estado antes na clínica” (1989, p. 18). Deste modo, podemos questionar o uso da estatística em um procedimento diagnóstico. O problema não é com a estatística em si, nem com a epidemiologia. Mas, como fazer uma boa pesquisa epidemiológica, se o passo anterior - o trabalho diagnóstico que irá referenciar o que está sendo avaliado em termos populacionais - não é bem delimitado? A estatística - método por excelência da epidemiologia - trata de populações; um diagnóstico psicopatológico refere-se sempre a um sujeito e a sua singularidade sintomática. Entre os dois, um hiato em relação aos assuntos de abrangência e de métodos.
            Michel Foucault (2003) nos mostra como a clínica surge amparada no método anátomo-clínico de Xavier Bichat. Este método busca passar da dimensão fenomênica dos sinais e sintomas para o que Adriano Aguiar Amaral (2004) chama de marcador biológico. E mesmo nesse contexto sempre há uma tensão entre o caso singular e o geral da teoria. No entanto, é justamente esse marcador biológico que não encontramos na clínica do sofrimento psíquico. Assim, precisamos encontrar outra referência nesse lugar: um marcador subjetivo. Um sintoma é uma queixa de um sujeito. Não há clínica sem essa queixa. No entanto, no campo do sofrimento psíquico, por não termos o marcador biológico, devemos pensar a relação sintoma-sujeito por outra via: interrogando sobre a função que um sintoma pode desempenhar para este sujeito. O sintoma não é considerado como um déficit; ao contrário: aponta para um laço, uma tentativa de solução de ocupação entre o sujeito, o sintoma e seu mundo. Ora, um sujeito que se queixa é um ser falante, indicando assim a dimensão primordial de atuação no campo do sofrimento psíquico: a da fala e da linguagem, como diria Jacques Lacan em 1953.
            No entanto, quando estamos às voltas com a definição de sintomas como déficits e do sujeito como um transtornado, um desadaptado, temos uma prática em que a fala do sujeito se reduz a respostas a um questionário, tornando-o uma cifra a entrar numa estatística ou um índice a classificar genericamente aquela experiência singular. Na clínica em que o sujeito é considerado como um ser falante, é levada em conta a historicização de sua vida, seus modos singulares inventados para se haver com o outro, mesmo que essa invenção se dê através do sintoma. Desse modo, o sintoma não é exatamente déficit, mas uma função de reparação de uma falha estrutural da relação do sujeito com o mundo, na medida em que essa relação porta sempre um hiato entre a relação com a coisa e sua representação na linguagem.
            Daí o uso desse manual na prática clínica ser um uso não epidemiológico A consequência de um manual que não se ampara no método clínico é a criação de verdadeiras epidemias psíquicas. Tomemos como exemplos os casos do chamado Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e os casos de autismo. Silvia Elena Tendlarz (2008) aponta para dados que demonstram o aumento de 500.000 casos de TDAH diagnosticados em 1987 para 4.400.000 casos dez anos depois nos Estados Unidos. Já no que se refere ao autismo, nos Estados Unidos tivemos o aumento em mais de 2.700% desde 1991. Os casos aumentaram de 1 a cada 150 crianças para 1 a cada 91. Antes de 1991 a estatística era de 1 a cada 2.500 crianças (Junior, 2010). Esse aumento epidêmico está diretamente ligado ao uso dos DSM’s como ferramenta única de diagnóstico, à sua vertente quantificadora de sintomas. E desse projeto hegemônico do DSM’s temos impacto sobre a formação dos profissionais. Além de muitas vezes serem erros diagnósticos - a mera presença de sintomas não define uma patologia específica - temos que nos interrogar a quem interessa tal aumento de transtornos. Não somente de casos, mas também do número de transtornos. Aumento que podemos chamar de impulso medicalizante.

4 - Política e Economia
            O impulso medicalizante dos DSM’s, a partir de sua terceira edição, é um projeto político que pretende submeter não somente os processos diagnósticos a procedimentos dito objetivos, mas também submeter os tratamentos do sofrimento psíquico a esses mesmos procedimentos. Ou seja, submeter o sujeito a uma padronização.
            Um dos mecanismos desse processo é o que podemos chamar de patologização da existência. Esta se dá por meio de transformação de vários aspectos da vida de um sujeito em transtornos. O resultado é o aumento exponencial de transtornos catalogados nos manuais estatísticos de diagnóstico. Através das décadas, houve um aumento de cerca de 300% de transtornos psiquiátricos proveniente das revisões dos DSM’s (CCHRint, 2011). Com o DSM-V temos a proposta de mudanças que não se trata apenas de avaliar a presença de sinais e sintomas, mas de prever e, consequentemente, prevenir o desenvolvimento de futuros transtornos. Na França, em 2006, já havia o projeto de avaliar crianças de três anos na busca de sinais de futuros delinqüentes. Em relação a isso, diz Gérard Wajcman: “(...) com a medicalização generalizada, esse projeto instiga a criminalização generalizada da sociedade. Todos culpáveis – futuros, potenciais. Se cada inocente é culpado em potencial, cada profissional de saúde e da educação se torna um agente potencial do poder, mobilizado a este título, fora de todo consentimento, em nome simplesmente da ciência” (Wajcman, 2006, tradução nossa).
            Uma questão, então, se impõe: um “diagnóstico”, pautado pela presença de sinais e sintomas e apoiado no regime de evidências, irá requerer que tipo de tratamento? Que noção de cura está aí implícita senão aquela da remissão dos sintomas? Questionar sobre esses fins da terapêutica que acompanha os manuais é questionar também pela ética e a política que estão aí em jogo.
           Não é gratuita a preconização dos tratamentos farmacológicos e os das terapias cognitivo-comportamentais. Ao fazer esse laço entre o diagnóstico, que não se preocupa com as causas dos fenômenos, com uma terapêutica do transtorno, revela-se o discurso de fundo: o discurso capitalista.  E vemos aí um elo em que o questionamento sobre o laço social, sobre o que Freud há mais de oitenta anos chamou de mal-estar na civilização (1929), fica de lado em prol do discurso capitalista.
            Alias, não é recente e nem desconhecida a relação intrínseca entre os DSM’s e a indústria farmacêutica. Hoje temos as companhias farmacêuticas como motor da revisão dos DSM’s. De acordo com Lisa Cosgrovea, Sheldon Krimskyb, Manisha Vijayaraghavana, Lisa Schneidera (2006), em relação à revisão do DSM-III, dos 170 revisores, 56% estavam associados a um ou mais laboratórios farmacêuticos. 100% dos revisores dos transtornos de humor e esquizofrenia e transtornos psicóticos também. A venda de medicamentos para tais transtornos rendeu mais de 80 bilhões de dólares pelo mundo. Evidencia-se, então, não só esse laço entre o discurso capitalista e os DSM’s, mas também a questão ética – ou a falta dela –  uma vez que temos laboratórios financiando os “profissionais” responsáveis pela revisão dos transtornos.
          Com o novo projeto de um DSM preditivo, temos a expansão do que podemos chamar de patologização da existência, em que qualquer evento da vida de um sujeito pode ser considerado um transtorno ou um potencial desarranjo. Consequentemente, deve ser tratado – via medicação – para a não perturbação da ordem pública, prevenindo o sempre inevitável mal-estar na civilização através do controle contemporâneo das populações. Essa patologização da existência revela o novo imperativo da psiquiatria estatística atual: todos transtornados. E se o tratamento privilegiado torna-se farmacológico, que grande negócio para a indústria farmacêutica! Exemplos no Brasil apontam bem para esse fenômeno nas últimas revisões do DSM. Em relação ao uso de medicamentos anti-depressivos (Brasil, 2008) temos os seguintes números: entre 2005 e 2009, tivemos o aumento de 44,8% de vendas (de R$647,7 milhões para R$ 976,9 milhões). Em relação ao TDAH, tivemos entre os anos 2000 e 2004 o aumento de 1020% de vendas de caixas de metilfenidato. Entre 2004 e 2008 tivemos outro aumento da ordem de 930% (Bordin, 2009). Aumento de vendas indica, por sua vez, aumento de casos.
            Outro fator que envolve a patologização da existência é que os DSM’s deixam de ter um uso exclusivamente clínico. A consequência é que seu campo de ação fica mal-delimitado. Afinal, um campo, para ser considerado propriamente um campo de saber, tem que delimitar seus contornos. A prática, que deriva do DSM, não o faz. Pretende ser utilizado tanto por psiquiatras como por advogados, enfermeiros etc.... Além de ser utilizado por profissionais clínicos e não clínicos, ele passa a ser utilizado em tribunais, escolas, organizações, instituições, etc...
            E, se muitas vezes seu uso é reivindicado em nome de um melhor gerenciamento da saúde pública, devemos estar atentos aos riscos que um mau diagnóstico pode acarretar não somente para os sujeitos, mas também para as finanças públicas. Sobre esses riscos, prestemos atenção às palavras de um psiquiatra importante nessa questão. Ninguém menos que Allen Frances, presidente da quarta revisão do DSM, em entrevista a Gary Greenberg (2011): “Nós (psiquiatras responsáveis pelo DSM-IV) cometemos erros que acarretaram conseqüências terríveis (...) a extensão do transtorno bipolar para crianças, proposta no DSM-IV, acarretou em um aumento de aproximadamente 40% dos diagnósticos do transtorno, mesmo que essas crianças nunca tinham tido um episódio maníaco e eram jovens demais para demonstrar o padrão de mudança de humor associados ao transtorno. E a prescrição de antipsicóticos para estas crianças também aumentou, ainda que muitos dos efeitos destas drogas sobre o cérebro em desenvolvimento não são bem compreendidos, mas que podem causar obesidade e diabete”. Frances acredita que este “modismo bipolar” não teria acontecido se o comitê de organização do DSM-IV não tivesse rejeitado o movimento para limitar o diagnóstico do transtorno bipolar somente para adultos. Em suma, como podemos nos fiar em um sistema diagnóstico cuja ambição é vender mais medicamentos, limitar outras estratégias de tratamento e que comete erros que são danosos para os sujeitos e para os governos? Um sistema que não faz a crítica de suas próprias aporias?
            Deste modo defendemos uma psicopatologia que:
●          tenha por referência maior o sujeito e seus modos singulares de se haver com o sintoma e com o mundo que o cerca;
●          uma psicopatologia que se situe inteiramente na clínica, pois este é seu método por excelência;
●          uma psicopatologia que conheça sua história, suas correntes, suas controvérsias e suas diferenças sócio-históricas.
●          que, por conseqüência, possibilite um ensino e uma formação críticos de profissionais do sofrimento psíquico;
●          que não esteja submetida aos lucros da indústria farmacêutica, mas que tenha por política a “economia” subjetiva do sintoma;
●          que não esteja amparada em um ideal imaginário de ciência mas em uma ciência moderna, cuja matemática inclui um esforço de demonstração de impossibilidades lógicas, antes que a afirmação de sistemas totais fechados;
●          que não promova a patologização da existência, a ilusão da prevenção e a padronização dos sujeitos.


Referências Bibliográficas.

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Equipe de redação e revisão do Manifesto de São João del Rei-Brasil em prol de uma Psicopatologia Clínica: Prof. Dr. Roberto Calazans (UFSJ); Profª Drª Andréa Guerra (UFMG); Prof. Dr. Fuad Kyrillos Neto (UFTM); Acadêmica em PsicologiaSamira Pontes (UFSJ); Acadêmica em Psicologia Marina Silveira de Resende (UFSJ).
http://stopdsm.blogspot.com/

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Historia de la locura

La Psicosis no es locura
Una lectura posible de la Historia de la locura
A partir de un caso clinico


El loco recuerda a cada uno su verdad.
Michel Foucault
Introducción

Hablaré de las psicosis y de la locura a partir del texto Historia de la locura en la época clásicai. Asimismo quiero integrar un expediente clínico cuyos datos primordiales me llegaron hace diez años, siendo estudiante de psicología, lo que me permitió mis primeros acercamientos a la clínica de la psicosis y su proximidad con la locura. La relación que existe entre una y otra no es algo evidente por sí mismo. Por un lado, la palabra “locura” hay sido, al igual que otros conceptos como “insanidad mental”, “alienación”, etc., descartado de los manuales de psiquiatría. Sin embargo, si nos atenemos a los Escritos, podemos afirmar que Lacan elaboró sobre ella toda una doctrina. Es importante recalcarlo, debido a que comúnmente psicosis y locura se confunden, lo cual crea no sólo distorsiones en la cínica, psicoanalítica o no. También en las concepciones que se tiene acerca de los alcances y límites de la teoría del psicoanálisis. Sin embargo, podemos contemplar a la psicosis, en tanto que fenómeno clínico, como uno de los “rostros de la locura”, utilizando la expresión utilizada por Foucault.
No es nueva la idea de relacionar a Foucault con el psicoanálisis. A tal punto que Jean Allouch ha llegado a afirmar que “el psicoanálisis será foucaultiano o no será”.ii Afirmación quizá desproporcionada, pero que ilustra la importancia de una relación que no deja de soslayarse.
Para la ciencia médica y el psicoanálisis las psicosis son un enigma y un desafío. La primera se afana por encontrar la causa orgánica, el segundo se ha esforzado, desde Freud, por hallar una etiología que sea coherente con el descubrimiento de lo inconsciente. Para ambos resulta intrigante el origen de un padecimiento que resulta tanto más extraño por su espectacular fenomenología como por su inquietante verdad. Es cierto, como dice Foucault, que el loco recuerda a cada uno su verdad. Pero no la verdad “objetiva”. La locura muestra una verdad otra, aquélla que hizo decir a Antonin Artaud, después de que se enteró de las atrocidades de la Segunda Guerra Mundial, así como de los horrores de los campos de exterminio y de las bombas atómicas sobre Hiroshima y Nagasaki: “¡Yo pensé que los locos estábamos adentro!” (Recordemos que Artaud pasó los años de la Guerra encerrado en un hospital psiquiátrico).
Psicosis y locura, hablando en sentido estricto, no son lo mismo. Ni siquiera podemos afirmar que todos los que llamamos “locos” sean psicóticos.-Paradójicamente tampoco es cierto que todos los psicóticos “estén locos”. Lo cierto es que, desde la perspectiva de los saberes delirantes, el psicótico y el psicoanalista forman una pareja natural, casi especula. Bástenos por lo pronto con decir que la psicosis representa el mayor reto para el psicoanálisis: ¿cómo efectuar un análisis con psicóticos? ¿Dónde y cómo se demuestra el inconsciente, que según Lacan se encuentra “a cielo abierto” en la psicosis? ¿Cómo establecer la transferencia con un sujeto cuyo discurso no hace lazo social? ¿Qué sucede con los conceptos fundamentales del psicoanálisis, a saber la transferencia, el inconsciente, la pulsión y la represión, aplicados a la clínica de la psicosis? Todas estas y otras preguntas nos vienen a la mente cuando enfrentamos un caso clínico totalmente distinto de las categorías tradicionales de la neurosis. La cuestión se complica aún más si consideramos que:”Es posible que un sujeto se posicione como loco, que ésa sea su respuesta a aquello con lo que la estructura del significante lo enfrenta. La locura es una posición con la que el psicoanalista puede tener que enfrentarse en su práctica.”iii
A continuación presentaré un caso clínico cuyo interés aumenta si lo consideramos la luz del descubrimiento de la clínica de las estructuras.


Abelardo, El nuevo
Recuerdo perfectamente a Abelardo, su pelo largo y sus 120 kilos repartidos en apenas 1.65 metros de estatura; sus ojos desorbitados y una perenne sonrisa benévola e inquietante –casi podría decir: una sonrisa ominosa; su edad, indefinidamente madura (quizás 40 o 45 años), contrastaba con una vaga actitud infantil. Llegó a mi vida gracias a un proyecto de servicio social que consistía en brindar acompañamiento terapéutico a pacientes con trastornos mentales graves. Lo primero que llamó mi atención fue la cantidad de cigarrillos y de coca cola que consumía al día: de cinco a seis cajetillas diarias y cinco botellas de refresco. Sus dedos estaban manchados, casi negros de nicotina. No parecía agresivo ni violento. Casi se diría que era excesivamente tranquilo y pacífico, como un niño obediente. Sin embargo, la pasividad de su comportamiento era resultado del tratamiento psiquiátrico: sufrió un primer internamiento a los dieciocho años, después de haber atacado brutalmente a su madre. Los que lo conocieron de joven lo recuerdan como un muchacho sumamente violento y agresivo. A este primer internamiento siguieron otros, con tratamientos diversos. Los padres intentaron muchas cosas para curarlo, pero la terapia electroconvulsiva tuvo resultados definitivos: lo convirtió en un dócil miembro de la comunidad humana. En el trabajo, gracias a las influencias de su padre, le otorgaron una pensión completa que disfrutaría desde los 21 años hasta su muerte, ocurrida 25 años después. A partir de que le dieran el alta médica, con una prescripción constante de antipsicóticos y frustrantes consultas con el psicoterapeuta, se convirtió en la sombra de su padre, un abogado que despachaba en el sur de la Ciudad de México. Abelardo lo acompañaba a todos lados, consumía sus horas diurnas en el despacho y por las noches seguía al abogado a bares y cantinas. Sólo se relacionaba con la coca cola y el cigarrillo. Podía pasar horas enteras sin hablar, sin embargo escribía mucho. Largos poemas que, de cuando en cuando, recitaba en las veladas nocturnas en las que seguía a su padre y por los cuales obtenía el aplauso de la concurrencia.
Abelardo llegó al programa de acompañamiento terapéutico debido a la muerte de su padre. El abogado murió en un accidente automovilístico en el que, por un azar del destino, no lo acompañaba su hijo (me reservo la descripción de este hecho, así como muchos detalles interesantes, para preservar la identidad de las personas aquí involucradas). Casi un año después murió Abelardo, víctima de una complicación provocada por la úlcera gástrica y el enfisema pulmonar que se volvieron sintomáticos a partir de la muerte del padre. La madre optó por el acompañamiento con el fin de encontrar a alguien que se hiciera cargo de su hijo, pues, según sus palabras, temía que algo le sucediera o que se extraviara, ya que Abel, como solía llamarle, había perdido a su único amigo. (Los nombres Abelardo y Abel son una sustitución que recuerdan, de manera aproximada, los nombres originales) Notemos que, de acuerdo con ella, no había muerto su padre, sino su “único amigo”.

Hechos relatados por la madre
Desde pequeño, Abel fue siempre una “mala cabeza”. No obedecía, no era como los demás niños, pues siempre había demostrado “algo raro”. Una preocupación constante de la madre durante los primeros años de la infancia de su hijo era el tamaño de su pene, pues lo tenía “demasiado pequeño”, pese a que el médico que lo examinó descartó microgenitomorfismo o cualquier tipo de anomalía. Posteriormente, siendo ya un adolescente, esta madre, ufanada de ser liberal, se encargaba de proporcionarle revistas pornográficas. Ya que el padre “no cumplía con su labor”, ella se encargaría de que fuera “como los demás chicos de su edad”. Pero Abel se resistía. Mostraba indiferencia hacia las muchachas. Preocupada por esas “anormalidades”, la madre insistió en conducirlo por “el buen camino”: le daba dinero a las chicas para que salieran con su hijo, incluso, lo llevó con prostitutas, en un intento infructuoso por convertirlo en alguien “normal”. Pero Abelardo estaba muy lejos de normalizarse. Al contrario, su carácter se tornó cada vez más rebelde e incontrolable, a lo que sus familiares respondieron con “mano dura”, hundiendo a la familia en un círculo vicioso de violencia inacabable. Siendo apenas un joven de diecisiete años, Abelardo se fue de casa. Su padre le consiguió un trabajo de auxiliar administrativo en una oficina de gobierno, trabajo al que rara vez asistía, pero que le permitió rentar un departamento e intentar hacer su vida.
Después de no saber nada de Abelardo durante algún tiempo, la madre se enteró de un “hecho vergonzoso”. Abel, su único hijo varón, salía a las calles vestido de mujer. Frecuentaba las calles de la Zona Rosa; flirteaba y “joteaba” con drogadictos y malvivientes. Incrédula, la madre fue a buscarlo. Llegó hasta el departamento que Abelardo había rentado, pero nadie le abrió. Llamó a un cerrajero y forzó la puerta. Una vez adentro no podía dar crédito a lo que sus ojos veían. En medio de un caos de basura, botellas de vino vacías, restos de droga y colillas de cigarro había todo un ajuar de mujer: vestidos cortos y llamativos, brassiers, estolas y maquillajes, joyas de fantasía y mil y una bisuterías. Esperó hasta que llegó su hijo, sólo para confirmar lo peor: Abelardo era un travestí, una vestida, una “loca”. Cuando vio a su madre ahí, el hijo montó en cólera y la agredió brutalmente. De no ser por los vecinos, que llamaron a la policía, seguramente la hubiera matado.
Durante tres años Abelardo recorrió hospitales psiquiátricos, consultorios de psicoterapeutas y de neurólogos. Cuando la medicina no fue capaz de curarlo recurrieron a acupunturistas, chamanes y exorcistas. Hallaron por fin la solución: la terapia electroconvulsiva. Como por arte de magia, Abelardo se pacificó después de varias sesiones, fue dado de alta y regresó a casa. El diagnóstico definitivo de esquizofrenia paranoide le otorgó una incapacidad de por vida. Durante los veinticinco años que sobrevivió después de los electrochoques, prácticamente no habló con la madre. Su indiferencia hacia ella contrastaba con el apego excesivo hacia su padre, hasta que la muerte de éste hizo que la vida de Abelardo se apagara también.


Abelardo Poeta
Para sorpresa y contento de su familia, Abelardo no volvió a vestirse de mujer, tampoco bebía ya alcohol ni consumía drogas. A cambio, comenzó a escribir de una manera compulsiva. Pude escuchar algunos de sus poemas recitados de viva voz por él. Llamaba la atención su singular estructura circular. Daba la impresión de estar contemplando un cuadro de Escher convertido en palabras. Recuerdo especialmente un “soneto al soneto”, en que el alejandrino final hacía nudo con el alejandrino del principio. Cada vez que recitaba uno de sus poemas terminaba diciendo: “Autor: Abelardo Ramírez, el nuevo”, cuando su “verdadero” nombre era Abelardo Sánchez Ramírez. Esto es, había adoptado un pseudónimo en el que excluía el apellido paterno y tomaba como primero el apellido de su madre. (De nuevo adopto nombres ficticios que dan una idea aproximada de lo ocurrido con los nombres reales). Desafortunadamente la madre ha negado la autorización para reproducir los poemas originales de su hijo, así como cualquier intento por difundir su obra, lo cual es una verdadera lástima. Uno de sus primeros poemas lleva por título “El universo se hunde”, escrito poco después de que lo dieran de alta. Curiosamente, este poema surgió de nuevo a la luz poco antes de su muerte. Según las palabras de su autor, este poema estaría destinado a perdurar “mil años”. Las futuras generaciones lo leerían y el nombre de “Abelardo el nuevo” quedaría por siempre grabado en la memoria de los hombres. Uno de los días que más recuerdo fue poco tiempo después de que iniciara el acompañamiento; Abelardo estaba sumido en su escritorio, con su infaltable cigarrillo y su coca cola, escribiendo sin parpadear y sin levantar la cabeza durante horas. Yo sólo lo observaba: un surco profundo se había grabado en su frente amplia. Unos cuantos cabellos caían desordenados por esa cabeza perlada de sudor. Más que un escriba parecía un cirujano afanado en una complicada y delicada operación. Su concentración era absoluta, hasta que por fin enderezó su espalda, levantó la cabeza y me miró de una forma harto extraña. No pude evitar ser presa de un ataque de angustia interior, al final de cuentas tenía frente a mi a un loco desconocido. Sonrió. Sus ojos desorbitados parecían interrogarme. No pude resistir ese silencio y, de manera titubeante, le pregunté: ¿qué escribes? Su respuesta no pudo ser más inquietante: “Autorretratos”. Esa fue la única palabra que pronunció ese día. Volvió a mirar el bonche de hojas que tenía ante sí y se sumió de nuevo en la escritura.


Algunas observaciones
A partir de ese primer encuentro con la psicosis tuve la oportunidad de percatarme de un hecho frecuente, casi podría decir característico: una “confusión sexual”, por llamarla así, que Lacan nombró como el empuje a la mujer. A este respecto, Maleval nos dice: “La puesta en relieve de un empuje a la mujer inherente a la psicosis constituye un dato clínico que se impone con toda su generalidad en cuanto alcanza su formulación. Se trata de algo observable bajo modalidades variadas en todos los grados de la evolución de la psicosis declarada: tanto en las formas más elevadas del delirio como en los estados esquizofrénicos. La emergencia de La Mujer tiende a confundirse a veces con la del Padre gozador, pero en ocasiones también se alza como el último dique contra lo real”iv. Recuerdo a ese adolescente que un buen día llegó a la escuela vestido con una falda y que fue corrido por el director, sólo para ser internado después de provocar un incendio que mató a su padre; o bien, al indigente que deambulaba con un chal que le envolvía la cabeza y que aseguraba ser la Virgen María. Sin mencionar al Presidente Schreber, cuya fantasía acerca de que “debía resultar muy placentero ser una mujer cuando se entrega al coito” iba a desencadenar la crisis que lo llevó a un prolongado internamiento, donde se acabaría de estructurar la idea de que sería la mujer de Dios, destinada a dar a luz a una nueva raza de hombres.v Frecuentemente se confunde como una homosexualidad lo que en realidad es una falla en la lógica de la sexuación. La propia madre de Abelardo se afanaba por “hacerlo un hombre”, logrando únicamente convertirlo en un objeto de su propio goce, a lo que él respondió adoptando una feminidad espectacular y escandalosa; pero no sólo eso, Abelardo, vestido de mujer, había cumplido en su cuerpo la fantasía de la mujer con falo, la imagen de la mujer completa. ¿Acaso un reflejo de esa madre que se encargaba de hacer lo que el padre no hacía? Esto es, darle, con toda “buena intención”, revistas pornográficas y llevarlo a burdeles, así como pagarles a las chicas para que salieran con él.
Abelardo dejó de vestirse de mujer, así como de ingerir alcohol y drogas, cuando dio con la escritura. No afirmo que ambos hechos estén relacionados, pues podría ser una conclusión precipitada, pero es evidente que jugó un papel importante en su “estabilización” el poder acumular durante años un río incesante de palabras (habría cerca de dos mil hojas escritas cuando murió). A propósito, recordemos las palabras de José María Álvarez en la introducción de una versión española del libro de Schreber: “Si concebimos la psicosis como el hundimiento del universo simbólico y el surgimiento inmediato de un vacío de significación, el delirio se nos presenta bajo la necesidad de encontrar un nuevo sentido a cualquier precio. En esta tarea se afana el delirante con éxito o sin él. Entendiendo en este caso el éxito del delirante no como el desvanecimiento del delirio que sana al psicótico y confirma su curación, sino como la adquisición de un aglutinante de la identidad que impide la disgregación más intensa del yo. Pues si en algunos casos el psicótico mejora cuando desaparece el delirio, en otros empeora si no da con él.vi Asimismo, este autor nos sugiere que el cauce natural del delirio es la escritura, cómo dudarlo en el caso de Abelardo, cuyo poema más querido se llamaba precisamente “El universo se hunde”, que escribía autorretratos para sostener una imagen propia y que borró de su pseudónimo el apellido del padre. Respecto de esto último, sugiero que no hizo más que constatar en los hechos una carencia en el registro simbólico. Esto es, la forclusión (Verwerfung) de un significante primordial, el significante del Nombre del Padre. Nos dice Lacan en Función y campo de la palabra y del lenguaje: “En el nombre del padre es donde tenemos que reconocer el sostén de la función simbólica que, desde el albor de los tiempos históricos, identifica su persona con la figura de la ley”vii ¿Qué pensar de ese padre abogado, a la vez ausente en el discurso de la madre y tan poderoso como para otorgarle un trabajo en el gobierno? Y no sólo eso. Un padre al que desarrolló un apego excesivo, de tal modo que no pudo soportar mucho tiempo su ausencia física, pero que pudo soportar su ausencia simbólica gracias a esa escritura.
Como conclusión de este caso, que bien podríamos llamarlo como el de un Artaud, moderno y desconocido, podemos encontrar que la psiquiatría sigue funcionando con la misma manera en que ha funcionado desde que Foucault denunciara la lógica de la exclusión: Abelardo, el loco, el psicótico, seguía manifestándose como una revelación del no-ser, como negatividad, y que sólo pudo sobrevivir al hundimiento de lo simbólico por medio de la escritura.
Quiero terminar este caso reproduciendo una cita de Deleuze:
“...el escritor, como dice Proust, inventa dentro de la lengua una lengua nueva, una lengua extranjera en cierta medida. Extrae nuevas estructuras gramaticales o sintácticas. Saca a la lengua de los caminos trillados, la hace delirar. Pero asimismo, el problema de escribir tampoco es separable de un problema de ver y de oír: en efecto, cuando dentro de la lengua se crea otra lengua , el lenguaje en su totalidad tiende hacia un límite ‘asintáctico’, ‘agramatical’, o que comunica con su propio exterior.
“El límite no está fuera del lenguaje, sino que es su afuera: se compone de visiones y de audiciones no lingüísticas, pero que sólo el lenguaje hace posibles. También existen una pintura y una música propias de la escritura, como existen efectos de colores y de sonoridades que se elevan por encima de las palabras, entre las palabras (...) De todos los escritores hay que decir: es un vidente, un oyente...es un colorista, un músico.
“Estas visiones, estas audiciones no son un asunto privado, sino que forman los personajes de una Historia y de una geografía que se va reinventando sin cesar. El delirio las inventa, como procesos que arrastran las palabras de un extremo a otro del universo. Se trata de acontecimientos en los lindes del lenguaje. Pero cuando el delirio se torna estado clínico, las palabras ya no desembocan en nada, ya no se oye ni se ve nada a través de ellas, salvo una noche que ha perdido su historia, sus colores y sus cantos. La literatura es un salud.”viii


Facultad de Filosofía y Letras, UNAM)


i Foucault, Michel, Historia de la locura en la época clásica, Fondo de Cultura Económica, México, 2002..

ii Tomado de Ayala, Inés, Es posible un psicoanálisis foucaultiano, En “Me cayó el veinte. Revista de psicoanálisis, No. 1 Primavera del 2000.

iii Eidelsztein, Alfredo, Las estructuras clínicas a partir de Lacan, Editorial Letra Viva, Argentina, 2001. Vol. 1. P. 85.

iv  La forclusión del Nombre del Padre. Su concepto y su clínica, Editorial Paidós, Argentina, 2006, P. 19

v Cfr Schreber, Daniel Paul. Sucesos memorables de un enfermo de los nervios, Asociación Española de Neuropsiquiatría, Madrid, 2006, P. 50 y ss.

vi  Schreber, Op. Cit. Pág. 14.

vii Lacan, Escritos. Vol. 1 P. 266.

viii Deleuze, Gilles, Crítica y clínica, Editorial Anagrama, España, 2000, P.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Invención y psicoanálisis

La invención ha designado habitualmente un campo que está a caballo entre el arte y la ciencia*. La invención del poeta y el rigor del matemático[1] se han repartido así lo que el lenguaje ha hecho posible en el ser que habla: la metáfora creadora con sus múltiples significaciones por un lado, la escritura unívoca y sin significación de la formalización matemática por el otro. Si la primera hace posible en la poiesis la creación a partir de la nada, del vacío de un objeto siempre reacio a ser matematizado, la segunda ha poblado el universo de nuevos objetos con su techné, objetos que la tecnociencia de hoy ya ha llegado a injertar en el ser que habla como si le fueran connaturales.
El psicoanálisis es un invención del siglo XX, una invención que no habría podido producirse sin la ciencia moderna pero tampoco sin ese objeto creado de la nada (das Ding) que solo el arte ha sabido singularizar en el ser que habla. ¿Qué lugar podrá tener el psicoanálisis y sus invenciones a partir de este nuevo siglo, cuando ya el arte ha “hecho ver la falta esencial que habita y sostiene a todo objeto”[2] y la ciencia parece haber cerrado también su ciclo alrededor de una forclusión definitiva del sujeto? El inconsciente freudiano parecería evaporarse así entre uno y otro, si no fuera por el retorno incesante del síntoma que, con su sufrimiento y su satisfacción substitutiva, se hace siempre y una vez más testimonio suyo. ¿Qué lugar, pues, para la invención del psicoanálisis en el nuevo orden simbólico que este siglo parece querer reducir a un problema de conocimiento objetivo, y el conocimiento a una mera técnica de manipulación de información?
¿Pero no fue, no habrá sido el inconsciente mismo otra cosa que una invención de Freud? Es la pregunta que se hizo Lacan en diversas ocasiones[3]. Fue en cualquier caso una invención que requería de una pareja, el sujeto histérico y su transferencia, como testimonio del lugar del Otro donde se alojaba un nuevo saber, un saber que había que saber descifrar primero para darle después ese lugar, lugar que no existe por sí mismo.
Fue un arte y fue también un esfuerzo de formalización de Freud los que hicieron existir la invención del inconsciente como ese nuevo saber y ese nuevo lugar a la vez. Cuando lo descubrió fue, como indica Lacan, de un solo golpe, pero para sostener esa invención había que hacer después su “inventario”[4] en el ser que habla. Es lo que los psicoanalistas hacemos desde entonces en la clínica del “uno por uno”, con los efectos de enseñanza y de transmisión que ello implica. ¿Basta hoy con ello?
Lacan terminaba el siglo que lo vio nacer a él y al psicoanálisis con la idea de que eso no bastaba. Y elaboró una nueva categoría para abordar lo que puede ser el principio de la (re)invención del psicoanálisis para este siglo: la categoría de lo real. Se trata de un real propio del psicoanálisis que, es cierto, solo se hace presente en la singularidad de cada caso pero es un real que, por esa misma razón, necesita de una reinvención incesante, dada la modalidad con la que se hace presente: la de no cesar de no escribirse.
En este punto conviene distinguirlo claramente del real que la ciencia de hoy piensa representarse y manipular con sus instrumentos de observación. El real de la ciencia es un real que incluye un saber ya escrito, un real que, por decirlo así, no cesa de escribirse. Por lo que respecta al sujeto y a sus síntomas, la ciencia cree aprehender hoy este real en el gen y en la neurona fundamentalmente. El efecto que produce sobre lo simbólico sigue, sin embargo, la lógica de la forclusión que Lacan ya situó en su momento: todo lo simbólico deviene entonces real. Las invenciones de la ciencia siguen hoy muchas veces esta fórmula reduccionista que promete encontrar y manipular el sentido en un real donde todo el saber está ya escrito o donde podremos también reescribirlo. La fórmula sigue muy de cerca la que encontramos en el propio texto de Lacan con respecto a la esquizofrenia, donde “todo lo simbólico es real”[5]. Solo se distingue de ella en la medida que el científico retrocede un poco para reconocer lo simbólico que él mismo ha introducido en ese real con su instrumento, incluso con su deseo más ignorado. En este punto, el artista tiene todavía la ventaja de hacerse el inventor de su instrumento simbólico con el que funda un “saber hacer” singular. Es la invención del arte que encontramos en un James Joyce con la creación de su nueva lengua y que Lacan investigó en el Seminario dedicado a ese saber hacer. El arte tomó la forma de síntoma, de sinthome para ser más precisos e incluir su singularidad de forma de goce.
Si en algún lugar encontramos un paradigma de la nueva invención que el psicoanálisis puede ofrecer en el nuevo orden simbólico del siglo XXI es, en efecto, en la formación del sinthome como creación singular del sujeto una vez ha reducido su síntoma a algo que no es comparable a nada, “tautología de lo singular”[6]. Es entonces una creación que, en realidad, no tiene un orden ni una ley previos en la medida que hace presente lo real que era el corazón del síntoma, el corazón de su ser de goce.
Si el cientificismo de Freud y su invención del inconsciente había creído que lo real último del psicoanálisis estaba en la biología, lo real abordado por la enseñanza de Lacan será idéntico a la topología, a ese objeto que se construye alrededor del mismo vacío que causa la creación. Pero a la invención freudiana del inconsciente como elaboración de saber, Lacan opondrá su propio sinthome que responde al real propio del psicoanálisis, según una fórmula que, al revés de aquella que define a la ciencia, se enunciará así: “lo real es lo simbólico”[7].
La invención última de Lacan, su sinthome con el que nosotros afrontamos el nuevo siglo, es precisamente este nuevo real que puede dar lugar a una reescritura de lo simbólico por otros medios que los que nos propone la ciencia. Es desde ahí que podemos entender la paradójica fórmula enunciada finalmente por Lacan: “Yo he inventado lo que se escribe como lo real”.[8]
Notas:
[1] Evocamos así la imagen con la que Lacan describe al personaje central del cuento de Poe en su texto “El Seminario sobre La carta robada”, en Escritos, Ed. Siglo XXI, México 1984, p. 33.
[2] Tal como lo definió de manera tan elegante como precisa Gérard Wajcman a propósito de Marcel Duchamp en El objeto del siglo, Amorrortu, Buenos Aires 2001, p. 84.
[3] Por ejemplo en su Seminario del 12 de Mayo de 1965, Problemas cruciales del psicoanálisis, (inédito).
[4] Es el término que Lacan utiliza para modular el descubrimiento freudiano: “Para decir que el inconsciente en Freud cuando lo descubre (lo que se descubre de una sola vez, todavía es necesario después hacer su inventario), el inconsciente es un saber en tanto que hablado como constituyente de LOMbre”, en “Joyce le Symptôme”, Autres écrits, du Seuil, Paris 2000, p. 565. La traducción es nuestra.
[5] Jacques Lacan, “Respuesta al comentario de Jean Hyppolite sobre la Verneinung de Freud”, en Escritos, siglo XXI, México 1984, p. 377.
[6] Como lo definía Jacques-Alain Miller en su Curso del 17/12/2008.
[7] Es así como lo enunciará Jacques-Alain Miller en su Curso del 19/01/2011.
[8] Jacques Lacan, Seminario 23, “El sinthome”, Paidós, Buenos Aires 2006, p. 127.

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*Colaboración en el volumen Scilicet de preparación del VIII Congreso de la Asociación Mundial de Psicoanálisis, El orden simbólico en el siglo XXI, Buenos Aires 23 -27 de Abril de 2012. Con la amable autorización del autor.